Suicídio: informando para prevenir – LISMEN

Suicídio é um ato final de uma série de complicações, cujo objetivo é a morte e é utilizado um método letal. Normalmente as pessoas que tentam o suicídio apresentam um comportamento suicida composto de pensamentos, planos e tentativas de suicídio.

Diante disso, é necessário nos educarmos para perceber as principais características em comum nas pessoas que pensam em cometer esse ato, além de desmistificar falácias para conhecermos a realidade da situação e podermos de fato ajudar.

Para isso, resumimos os conhecimentos descritos na cartilha escrita pela Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) “Suicídio: informando para prevenir”.

 

Mitos sobre o comportamento suicida

Há várias noções relacionadas ao suicídio que são falsas e que sem a devida explicação podem causar malefício aos indivíduos propensos à esse ato. Um desses mitos é relacionado à questão da saúde mental, em que muitos não relacionam o comportamento suicida com doenças mentais, sendo que na realidade um dos pilares na decisão da pessoa é a sua percepção da realidade, que se tratada de forma adequada pode evitar uma tentativa de suicídio.

Além disso, é importante saber que o risco para suicídios pode ser completamente encerrado após um tratamento eficaz, no entanto, durante o processo em que a pessoa apresenta o comportamento suicida, não se deve ignorar pedidos de ajuda ou ameaças de suicídio.

Outra informação importante para a prevenção do suicídio é saber que após uma tentativa de suicídio, o indivíduo se torna muito fragilizado e o risco mantém-se muito alto para novas tentativas.

Ainda, o suicídio é considerado uma temática muito delicada e dessa forma ignorada, mas a conversação sobre suicídio pode aliviar e diminuir a tensão de pessoas que apresentam esses pensamentos, possibilitando que seja repassado informações de como procurar ajuda e explicando o problema.

 

Fatores de risco e de proteção: como identificar o paciente suicida

Principais fatores de risco: tentativa prévia de suicídio e doença mental, principalmente não diagnosticada e não tratada, ou tratada inadequadamente.

Outros fatores de risco: desesperança, desamparo e impulsividade são importantes pela persistência deles mesmo após a remissão de outros sintomas depressivos, além de que a associação entre impulsividade e desesperança podem ser letais.

Idade, principalmente jovens e idosos. Gênero masculino apresenta taxas de suicídio maiores, além de ter como principais fatores de risco solidão e isolamento social. Enquanto o gênero feminino apresenta taxas de tentativas de suicídio maiores, mas por apresentarem redes sociais mais fortes, apresentam mais fatores de proteção. Outra situação que pode causar um aumento do risco de comportamento suicida é o conflito da identidade sexual, especialmente em indivíduos que sofrem aceitação social.

Doenças clínicas não psiquiátricas, especialmente quando apresentam sintomas não responsivos aos tratamentos e nos primeiros meses após o diagnóstico. Eventos adversos na infância e na adolescência, além de história familiar de suicídio e genética. Fatores sociais como poucos laços afetivos pode ser um fator de risco, além de desempregados ou pessoas que vivem sozinhas.

Fatores protetores: autoestima elevada, bom suporte familiar, ausência de doença mental, estar empregado, capacidade de adaptação positiva e acesso de serviços e cuidados de saúde mental.

Posvenção do suicídio

É considerado que a cada morte por suicídio, 60 pessoas sejam intimamente afetadas, seja família, amigos e colegas de classe. Diante disso, a posvenção é um conjunto de habilidades e estratégias para acompanhar e cuidar desses membros ou em casos de tentativas de suicídio, para auxiliar na cura após experiência de pensamentos suicidas. Faz parte dessas estratégias grupos de apoio ao luto e recrutamento ativo dos familiares. Essas ações auxiliam a diminuir o prazo de sofrimento psíquico das pessoas envolvidas no luto.

 

O suicídio e a importância da rede de saúde

Quase 100% dos suicidas apresentavam alguma doença mental, no entanto, muitas vezes não diagnosticada ou tratada. Contudo, metade dos que morrem por suicídio frequentaram alguma consulta médica no período de 6 meses que antecedeu a morte.

Diante desses dados é notável a importância de uma rede de saúde integrada e capacitada para detectar e lidar com essas queixas, visto que os indivíduos com pensamentos suicidas procuram ajuda, apesar de nem sempre serem profissionais de saúde mental.

À equipe de saúde como um todo compete identificar e avaliar o risco suicida, sendo capazes de entender que qualquer tentativa ou intenção seja relevante e merece um atendimento cuidadoso.

Enquanto que na atenção primária, devido à maior proximidade entre os pacientes e os profissionais de saúde, é de extrema importância que existam programas que eduquem a população sobre o assunto de suicídio, para que a comunidade auxilie na identificação de possíveis riscos de suicídio, além de capacitações para os médicos e outros profissionais da atenção primária com o intuito de permitir uma rápida identificação, avaliação e manejo de situações de baixo risco.

A atenção secundária e terciária (CAPS, hospitais de urgência e emergência) atende principalmente os pacientes que estão em situação de crise, devendo recebê-los e avaliá-los, seguindo com tratamento específico para a necessidade do indivíduo, com identificação de fatores de risco e protetivos, acompanhamento e encaminhamento para serviços mais especializados, mas sempre com a certificação de atendimento e contrar-referência. A partir de 2014, tentativas de suicídio entraram na Lista Nacional de Notificação Compulsória de doenças, devendo ser notificada imediatamente em até 24 horas da ocorrência, além de garantir que essa pessoa seja colocada em tratamento a fim de evitar novas tentativas e do suicídio completo.

No entanto, a prevenção do suicídio não se limita apenas à questão da rede de saúde, devendo apresentar participação da sociedade inteira, como controle do acesso aos métodos mais utilizados para o ato, incentivo a espaços de promoção de saúde na comunidade, campanhas de prevenção nas mídias e nas escolas para educar as pessoas e desconstruir tabus.

 

Avaliação e manejo do paciente

É impossível prever se o paciente irá cometer suicídio, somente estimar o risco do ato suicida.

A OMS estima que há 3 características psicopatológicas comuns entre os suicidas:

  • Ambivalência: desejo de viver e morrer se confundem; há necessidade de se escapar da dor e do sofrimento, mas também há a vontade de sobreviver. O objetivo é unicamente sair daquele sentimento do momento de infelicidade, de acabar de uma vez com a dor e encontrar um descanso dos problemas. Se o apoio social for bom, o risco de suicídio diminuirá.
  • Impulsividade: o impulso do suicídio é transitório e tem a duração de poucos minutos ou horas. Pode ser desencadeado por uma situação vivida que foi negativa para a pessoa, como rejeição, fracasso, falência, morte de um ente querido.
  • Rigidez: quando a pessoa decide pôr um fim à vida, ela só consegue pensar em se suicidar, não é capaz de perceber maneiras de enfrentamento, o seu pensamento é irredutível.

Há uma distorção da percepção de realidade com avaliação negativa de si mesmo, do mundo e do futuro. A pessoa não tem perspectiva do seu futuro, há ausência de planos futuros quando aparece a ideação suicida, e assim, o ato suicida.

Há fatores de risco para o ato suicida, como doença psiquiátrica pré-existente e não tratada ou mal tratada, história pessoal e familiar de comportamento suicida, suicidabilidade, fatores estressores crônicos e recentes, fatores psicossociais, presença de outras doenças crônicas.

Como abordar o paciente? Paciente chega na atenção básica, com queixas diferentes, na maioria das vezes queixas somáticas, por isso é necessário a escuta como abordagem. Deve ser feita com cuidado, a forma verbal é extremamente necessária, para assim, criar um vínculo e acolher o paciente.

6 perguntas fundamentais, 3 delas para todos

  1. Você tem planos para o futuro?
  2. A vida vale a pena ser vivida?
  3. Se a morte viesse, ela seria bem-vinda?
  4. Você está pensando em se machucar/se ferir/fazer mal a você/ em morrer?
  5. Você tem algum plano especifico para morrer/se matar/tirar sua vida?
  6. Você fez alguma tentativa de suicídio recentemente?

É importante observar se há meios acessíveis para o paciente cometer o suicídio; se o plano que foi feito é letal, e se tem como resgatá-lo de alguma forma; se alguma preparação foi feita para o plano de suicídio; se já teve uma tentativa de suicídio e quão perto chegou de realizar o ato; se há fatores estressantes recentes que possam estimular o ato; se existe motivos que o mantenham vivo.

 

Avaliando a doença mental:

As principais doenças associadas ao comportamento suicida são depressão e transtorno bipolar, além de transtornos relacionados ao uso de álcool e outras substâncias, transtornos de personalidade e esquizofrenia.

  • Depressão: estima-se que entre 6-8% da população fará pelo menos um episódio depressivo em um ano. Ao longo da vida, até 25% das mulheres e até 10-12% dos homens também farão pelo menos um episódio depressivo. É a doença com maior frequência entre os suicidas, por isso a necessidade do tratamento eficaz, tanto com psicoterapia ou com medicamentos antidepressivos, e nos casos mais graves pode ser feito a eletroconvulsoterapia (ECT). Seus principais sintomas são a tristeza diária, inapetência e perda de peso; perda de interesse para as atividades diárias; insônia; cansaço, fraqueza e dificuldade de concentração.
  • Transtorno bipolar: acontece em cerca de 1,5% da população. É caracterizado por alterações de humor que se manifestam, como episódios depressivos, que se alternam com episódios de mania. É o transtorno mental mais associado ao comportamento suicida, até 50% tentam o suicídio pelo menos uma vez na vida. O tratamento com psicoterapia e medicamentos reduz o índice de suicídio, sendo que a 1ª linha de medicamento é o lítio, pois tem uma ação antissuicído, podendo reduzir a impulsividade e a agressividade do paciente.

Avaliação do risco de suicídio:

  • Risco baixo: se caracteriza por alguns pensamentos suicidas, mas não tem nenhum plano. Nesse caso fazer a escuta acolhedora, facilitar o vínculo do sujeito e ajudar com suporte social e institucional, além do tratamento do transtorno psiquiátrico. Referenciar o paciente se não houver melhora.
  • Risco médio: caracteriza-se por pensamentos e planos suicidas, mas não tem o objetivo de cometer suicídio instantaneamente. É necessário fazer escuta terapêutica, tomar cuidado com meios de cometer suicídio no ambiente; investir nos fatores protetivos, manter contato com amigos e família do paciente para apoiá-lo. Referenciar para o especialista e orientar sobre medidas de prevenção, como esconder objetos perfurocortantes, cordas e medicamentos.
  • Risco alto: caracteriza-se por ter o plano feito e deseja faze-lo imediatamente, além de tentativas prévias de suicídio. É importante nunca deixar a pessoa sozinha; ter cuidado com meios de cometer suicídio no ambiente e realizar contrato de “não suicídio”. Encaminhar para psiquiatra e se necessário internar.

 

Caso tenha interesse em ler o documento por completo ou se aprofundar na temática, acessar o documento pelo link: http://www.flip3d.com.br/web/pub/cfm/index9/?numero=14#page/1

 

Escrito pela Liga Acadêmica de Saúde Mental (LISMEN)

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